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Uma camaradagem inusitada

Aquele ônibus, ao longo dos anos, se tornou especial. Opção preferida de quem deseje ir do bairro diretamente ao centro da cidade, de forma rápida.

Aquele ônibus, ao longo dos anos, se tornou especial. Opção preferida de quem deseje ir do bairro diretamente ao centro da cidade, de forma rápida.

As pessoas vão chegando no ponto e formando a fila. E quem quer que costume se servir dele, no horário da manhã, encontrará, quase sempre, as mesmas pessoas: a senhora que vai para a natação várias vezes na semana, faça frio ou faça sol; aqueloutra que trabalha no shopping, a jovem que se dirige à faculdade.

Com o passar dos anos, natural que o conhecimento entre os passageiros tenha ocorrido e as conversas, no ponto de aguardo, giram em torno de filhos, as dificuldades financeiras, o tempo que insiste desabar aguaceiro todos os dias...

Quem chega logo pergunta: Já passou o amarelinho?

Amarelinho é o nome com que foi batizado o ônibus, por causa de sua cor amarela, que o diferencia de outras linhas.

Quando as pessoas vão embarcando, começam os diálogos com o motorista:

Bom dia. E aí, como vai, José Luís?

Exatamente nesse momento é que se evidencia a diferença entre esse ônibus que faz o horário da manhã e outros. Uma camaradagem se revela, de imediato.

Perdeu o horário, ontem? – Pergunta o motorista a uma senhora.

E a resposta vem pronta: Ontem fui mais tarde, fiz horário especial no escritório.

Passageiros acomodados, o ônibus segue pela rota convencionada, parando aqui, ali, ao comando dos usuários, que se alternam nas subidas e descidas da condução.

O diálogo assume um tom de cordialidade e a conversa flui.

Então, se ouve um espirro de José Luís. Outro. E outro.

Alguém grita do meio do ônibus: Saúde!

Espero que não seja gripe! – Fala ele.

Um brincalhão fala: Não se preocupe. É alergia... ao trabalho.

Todos riem.

Uma senhora experiente nos anos arrisca a prescrever sua receita infalível para gripe, que consiste em chá de determinada erva, associada a uma boa noite de sono.

Quando ele entra em férias, o ônibus deixa de ser o mesmo. Torna-se mais silencioso. Parece faltar o elo de ligação entre eles.

No seu retorno, todos entram, cumprimentam e cada qual vai fazendo seu comentário:

Nossa, que férias longas! E aí, viajou? Descansou bastante? Pronto pra levar a gente?

Ele parece ser alguém da família. Alguém que participa, ao menos brevemente, alguns minutos diários da vida de cada um.

Não é somente o contratado da empresa de ônibus. É alguém que sabe aguardar, pacientemente, que o idoso desça ou suba os degraus, um a um, bem devagar.

Também antes de prosseguir com o veículo, espera que se assente o idoso ou aquela mãe com o bebê ao colo.

Tudo para que ninguém caia ou se machuque.

Um motorista. Uma pessoa especial. Alguém que merece elogios pela forma de se conduzir.

E os recebe. De muitos desses passageiros, conhecidos de tempos, que vão descendo e falando:

Até logo! Obrigado por me conduzir até aqui. Bom final de semana. Bom feriado. Até amanhã. Deus o abençoe.

Um tratamento VIP em um ônibus de uma linha urbana de uma capital...

Uma inusitada camaradagem construída ao longo dos anos entre um servidor e habituais usuários.

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